segunda-feira, 15 de agosto de 2011

HISTÓRIA E RESISTÊNCIA - Surgimento do Povo e Cultura Caiçara

HISTÓRIA E RESISTÊNCIA - O Surgimento do Povo e da Cultura Caiçara.

Olhando os 500 anos passados, desde que os Espanhóis e Portugueses aportaram nestas terras, encontramos uma história de muito sofrimento, mas igualmente de muita coragem, amor e solidariedade.
Nas terras do atual Brasil moravam mais ou menos 5 milhões de habitantes. Os homens de Álvares Cabral não perguntaram quem eram ou como se chamavam: chamaram-nos de “Índios” e este erro ficou até agora. Em nossa região do Vale do Ribeira, moravam os Tupis e os Carijós, habitantes desde muitos milhares de anos; desde que vieram migrando a partir da Ásia, passando pelo Estreito de Bering; desde o atual Alasca, da América do Norte, descendo devagarinho em direção ao Sul, numa história de 45 mil anos.

Senhor Deus, por que nós não conhecemos esta história ?

Os Europeus logo descobriram as riquezas destas terras e começaram a tirá-las. Sequer pensaram em pedir licença ou em perguntar a quem pertenciam. Levaram o Pau Brasil até quase desaparecer e fizeram grandes lucros, nos mercados da Europa. A madeira que deu nome à nossa terra, foi o primeiro produto que roubaram, até quase desaparecer.
Descobriram um clima favorável para o cultivo da Cana de Açúcar e começaram grandes plantações. O trabalho foi feito pelos indígenas. Eles foram forçados a trabalhar para os “novos donos” e o açúcar era levado para Portugal.
Descobriram que havia Ouro nestas terras e a febre de riquezas chegou ao seu ponto alto. Não havia mais respeito por ninguém. A ordem era tirar o ouro e levá-lo para Portugal. Ouro, prata e pedras preciosas, durante dois séculos, foram os produtos mais cobiçados da região. Nas encostas da Serra do Cadeado, subindo pelo Rio das Minas em Cananéia, e nos afluentes do Rio Ribeira, na região de Iporanga e Ribeira houve muitas minerações.
Trabalho escravo, grandes canoas a remo subindo e descendo o Rio Ribeira de Iguape, os povoados de “pousadas” ao lado do rio Ribeira, os muitos quilombos afastados do rio, “bem no centro” e principalmente uma grande maioria de população negra nos bairros onde houve estas explorações, são marcas de uma história de exploração, de escravatura e de sofrimento mas também de um povo forte que soube sobreviver, gerar a próxima geração e guardar sua força e grandeza.
Meu Deus, meu Deus, por que o nosso povo sofreu tanto? E como este povo soube resistir e manter-se tão forte!
Nossa região foi a primeira a produzir este maldito produto do ouro, que foi a causa de milhões de mortes nestas terras da Santa Cruz, e em tantas outras partes do mundo.
Será que o brilho do ouro é mais bonito que o sorriso do povo, Senhor ?
Durante séculos, o Rio Ribeira e os portos de Iguape e Cananéia testemunharam a exportação das riquezas destas terras, em favor da Europa, para enriquecer o povo de lá.

A mão de obra dos indígenas “não prestava”. Estes moradores antigos não tinham como resistir à violência dos colonizadores, mas também não lhes entregaram a sua liberdade; fizeram de tudo e nos serviços, os Colonizadores substituíram-nos pelos negros trazidos da África.
Pelo menos quatro milhões de negros foram “importados” para as terras do Brasil, para fazer todos os tipos de trabalhos pesados, sob o peso da mais cruel escravidão de que a história do mundo tem conhecimento.

Os traços dos negros, no rosto de nosso povo trazem marcas de muito sofrimento, Senhor, mas continuam traços de rostos e de corpos bonitos.

 
O Arroz foi a riqueza das lavouras de nossas terras durante mais de dois séculos. Os armazéns fizeram grandes lucros e navios da Europa vinham buscar cargas de arroz, milho e farinha de mandioca nos portos de Iguape e Cananéia.
Nosso arroz era famoso, mas os pobres ficaram sempre devendo nos armazéns / até assinar um papel em que desistiram da propriedade das terras. Aí, a dívida no armazém estava perdoada. Por enquanto....



As terras da região do Vale do Ribeira sempre produziram produtos importantes: o pau brasil, a cana de açúcar, o arroz, a farinha de mandioca, o feijão, e mais tarde a banana, o chá, as verduras e as flores. Até a carne seca de caça chegou a ser produto de mercado e de exportação.
A tainha sempre “engordou” a alimentação dos sitiantes no tempo do inverno. Com menos serviço da roça, os sitiantes migraram por dois meses para a beira-mar para “pegar tainhas”, salgá-los e levá-los para casa.
A Manjuba foi descoberta pelos japoneses que souberam organizar a sua comercialização.
Meu Deus, quanta riqueza e sempre fomos um povo tão pobre!
As terras, em 1500, eram tão livres como os seus moradores: Os indígenas habitavam as terras como grande Dom de Deus. Até os dias de hoje, os indígenas gostariam de viver assim, mas o primeiro produto que foi trazido nos barcos dos colonizadores foi a ganância e para ela não existe “Dom de Deus” e nada fica seguro. Os portugueses tomaram tudo como propriedade e a primeira ação era dividir as terras em “Capitanias Hereditárias” (em 1532). A costa de Brasil foi demarcada em enormes faixas de terras, da costa para o oeste, e tudo o que estas terras continham e todos os que ali habitavam, pertenciam automaticamente aos portugueses beneficiados.Quando da Abolição da Escravatura, nada foi feito em prol dos negros que foram “postos na rua”.  Nalguns lugares, eles receberam as terras onde tinham sido escravos “porque já eram da família”. Na maioria das vezes, perderam o direito à Senzala e ficaram sem nada. Muitas fazendas foram abandonadas pelos antigos donos porque não tinham outra oferta de mão de obra, como tinha no interior do Brasil.. O governo tinha começado a atrair imigrantes para ocupar as terras e produzir, mas em nenhum instante foi pensado em ceder terras aos negros, que ficaram na mais extrema miséria. O POVO, nestes séculos, onde é que ele estava? Da História que se ensina nas escolas, não saberemos responder a esta pergunta. A escola nos ensina que os “heróis” os Bandeirantes, os grandes descobridores, aprontaram suas proezas, numas tantas histórias mal contadas. Os indígenas foram dizimados, o povo dos Carijós deixou de existir pelos anos de 1700, os Tupis desapareceram, poucos grupos sobraram, fugidos para os lugares de mais difícil acesso. Em nossa Região sobra uma Aldeia de Guaranis, na Serra de Itatins, dentro do município de Itariri. Nos rostos do povo do Vale do Ribeira, porém, são guardados os traços bonitos dos indígenas. O Povo caiçara preserva fielmente os traços marcantes dos primeiros moradores destas terras. Os Negros foram tratados, pior que os animais, até a Abolição e foram depois negados em sua existência: houve terras para os outros, mas nada para os negros.
Mais tarde, estas terras começaram a ser subdivididas em “sesmarias”, áreas de até uma légua quadrada, uma extensão de terras de até mais ou menos 1600 alqueires paulistas, sempre sem considerar os moradores antigos. Estas sesmarias foram, em nossa região registrada nos livros da Igreja, nas paróquias de Iguape e Cananéia. Oficialmente, eram terras cedidas que continuavam pertencendo ao Reino de Portugal. Em 1850, quando sempre mais gente “livre” chegou a morar aqui, sentiu-se a necessidade de “prender” as terras. A primeira Lei das Terras do Brasil, de 1850, dava o Título de Propriedade a quem tinha Sesmarias ou posse antiga e produzia em sua propriedade. Novamente, estas escrituras foram feitas pela Igreja. Nas Paróquias mais antigas da região, ainda existem os Livros das Escrituras destas terras ( livros dos anos de 1855-56). Nestes livros já se pode perceber que os ricos, os donos dos armazéns e os Coronéis, burlavam a Lei e registravam muito mais do que a Lei permitia.

Dos Portugueses pobres, que vieram para cá em busca de maior sorte, nunca se falou uma palavra sequer. Eles foram a maioria dos colonizadores e formaram imensas massas de mão de obra barata e duramente explorada.

Destes três grupos de pobres e marginalizados, formou-se o nosso povo “caiçara”, povo carinhoso, de pouca fala quando tem outros por perto, desconfiado porque aprenderam este mecanismo de defesa, povo de imenso amor aos seus filhos, trabalhando e fazendo todo tipo de artimanha para que “os filhos tenham uma vida melhor do que eles tiveram”. Os traços deste povo caiçara são impressionantes: “de cor”; traços de negros, de indígenas e de portugueses, tudo misturado; falam um português entre erudito – como tinham de aprender dos Senhores da Casa Grande para não fazer feio aos visitantes – até uma língua bem cabocla dos que só conversavam entre eles; muito ricos de arte e de sensibilidade, aprenderam mil e uma coisas para agradar aos senhores e assim sobreviver; chama atenção a sua musicalidade que tem claras origens na cultura dos Colonizadores e se enriqueceu com os ritmos africanos, sem se esquecer da música simples, repetitiva e penetrante dos indígenas.
A RESISTÊNCIA: Como estes povos sobreviveram e mantiveram as suas culturas?

Uma profunda fé no Deus da Vida, é própria tanto dos guaranis como dos negros. Esta fé, não havia como tirá-la deles.
O Senso de liberdade dos indígenas, a solidariedade e uma resistência muito forte dos negros, os fizeram sobreviver às maiores humilhações. Os portugueses pobres, parece que mais receberam do que podiam dar mas sua pertença ao mesmo grupo, ao mesmo nível econômico e a convivência, devem ter facilitado a integração no Brasil oficial; como uma das classes mais pobres, é óbvio.
Apesar da extrema pobreza e dos tratos extremamente cruéis, este povo soube se manter sem perder sua identidade e dignidade. A resistência os fortaleceu e também agora, nestes tempos de grilagens e barragens, serão capazes de se manter e de gerar as próximas gerações. O amor à vida, neste povo, é indestrutível.
Uma coisa, porém, mudou: O tempo atual e as atuais agressões contra os pobres, exigem maior organização e maiores alianças entre os pobres e atingidos. O conhecimento da história destes 500 anos, virá ao encontro desta necessidade de se organizar para o futuro.
A nossa força está na união e na organização!
O que fazemos com todos estes dados? Vieram morar aqui, na Região do Vale do Ribeira, muitos grupos de imigrantes: Alemães, Suíços, Ingleses da América do Norte, Poloneses, Libaneses, muitos Japoneses, Húngaros e muitos outros, convivendo com o nosso povo caiçara. Muitos destes não conhecem bem esse povo caiçara, chegam a desprezá-los como preguiçosos e lentos, ou pior.
Queremos conhecer melhor este nosso povo do Vale do Ribeira e a sua história.
Este povo é lento e desconfiado. Será que não tem plena razão? Ele tem um passado de 500 anos de extrema exploração e maus tratos, mas traz uma história e uma cultura muito ricas:  Do Indígena que louva a Deus “na flor da pele” e ama a liberdade do ser humano sem negociá-la. Prefere morrer a ser escravo; Do Negro que resistiu à mais dura escravatura da humanidade e continua forte, bonito, gozando a vida por todos os poros, convivendo com os outros com uma quase natural tendência para o mutirão da vida, cantando e praticando esporte como sinais de seu amor à vida. Ele continua o pobre da Nação, mas esbanja Axé, força e vitalidade;

Do Português pobre que não teve como subir a serra e subir na vida, desconfiado, brincalhão e amador da vida. Para gozar a vida é capaz de muita safadeza: quer gozar a vida porque gosta.


Este povo caiçara está pronto para fazer um passo para frente. Tem as forças para iniciar uma nova caminhada. As atuais lutas pela posse da terra, por um “Rio Ribeira livre de barragens” e a sua participação lúcida dos comitês que debatem o manejo do exuberante Meio Ambiente e a preservação da Mata Atlântica e das mananciais de água, podem ser as sementeiras para uma nova organização e uma nova etapa de libertação.
Padre João 30 (Trinta) – Cananéia - 2003














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